sábado, 5 de outubro de 2013

A ponte dos meus sonhos

 
Eu tinha um fusquinha, lá pelos anos de 1982, havia chegado da Escola de Sargentos das Armas, na cidade de Três Corações nas Minas Gerais. Eu gostava de guiá-lo pelas ruas de Bayeux. Nesse tempo a Avenida Liberdade ainda não possuía revestimento asfáltico, era de paralelepípedos e eu adorava passar em cima da ponte, sim, em cima da ponte que passa sobre o Rio Sanhauá ligando a cidade “francesa” à capital de Nossa Senhora das Neves. Elas são irmãs siamesas, pois, mais do que separadas pelas águas do velho e principal afluente do Rio Paraíba, estão mesmo é umbilicalmente ligadas, já que o vetusto curso d’água, chamado pelos Índios Piragibe de Sanhauá, cuja palavra traduzida do Tupi-guarani para o português significa Rio de Águas Claras ou Águas Limpas banha as duas cidades co-irmãs, mas ceifaram a vida da ponte, não posso mais passar com meu automóvel sobre ela.
Conta-nos a história, que foi na foz deste rio que nasceu a cidade Filipéia, hoje margeada pelo casario histórico e pelos campanários de várias igrejas, nos idos do Século XVI, quando a cidade desabrochou em sua cabeceira, ele já corria caudaloso ronronando: Aqui darei banho em duas meninas, acompanharei seus crescimentos, serei pai, provedor e seus rebentos não se esquecerão nunca de mim, notadamente quando cair em idade provecta.

Enganou-se o velho Sanhauá, os filhos das duas comunas que ele adornou, asseou, forneceu água para beber, ofertou o melhor dos alimentos pescados em suas águas claras, deu de forma gratuita água para fazer suas comidas, matar a sede dos seus animais, hoje os tratam com a mais doída de todas as ingratidões: a agressão perversa á sua integridade física, ameaçando-o mesmo de matá-lo e de forma impiedosa desferem rajadas de tiros, disparos mortíferos em forma de milhares de litros de esgoto e lixo doméstico drenados e jogados nas entranhas do santuário que a natureza nos presenteou, nas veias dessa dádiva gloriosa doada por Deus, sem nada nos pedir e nos deu mais, como acessório que somente o divino pode conceber, protegeu suas margens com um manto sagrado, ou seja, elas estão cobertas pelos manguezais, berço de alimentos, habitat das mais diversas espécies de animais, e como se Deus tivesse previsto, para não permitir que a fonte fosse morta mais rápido do que desejam os homens, já que poucos se atrevem a enfrentar os mangues.
Pois bem, sobre o leito desta beleza natural, a mão de um homem conhecido como Barão do Livramento da Província de Pernambuco, construiu no ano de 1865, pela quantia de cento e trinta contos de réis a Ponte da Batalha, depois chamada de Ponte da Nova Liberdade, mas calculemos, de 1865 até os dias atuais, já decorreram exatos 148 anos, isto mesmo, um século e meio e nenhum cuidado foi dedicado a obra d’arte de refinada engenharia e hoje ela tai dando os últimos suspiros, na ânsia da morte e da mais aguda decepção com os que deviam protegê-la, os filhos de Bayeux e da Parayba do Norte estão lhe assassinando, numa judiação tamanha, que até parecem sádicos desalmados.
Socorro, ouso clamar, ainda existe tempo, vamos todos achegar com adjutórios do Velho Rio de Águas Limpas, vamos proibir a canalização de esgotos, o assoreamento de suas margens e dar-lhe um presente merecido, um mimo, uma ponte parecida com esta, uma ponte a ser edificada com a mais nobre estrutura de metal. Ele merece, nós merecemos, esta é a ponte dos meus sonhos, não precisa que suas estruturas sejam de ouro, mas de material superior, para deleite e orgulho dos que habitam as duas polis, de forma que ela passe por cima da linha de trem e morrra lá sobre a vetusta Rua Imperatriz, hoje Rua da República, fazendo-a eclodir, resgatando a pujança da artéria sempre vocacionada para o comércio e a indústria.

 
Promotor marinho Mendes

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